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terça-feira, 23 de setembro de 2008

ELIEZER PENNA: A ASCENSÃO DE UM PAULISTA EM GOIÁS


Hélio Nascente*

Eliezer Penna: a ascenção de um bandeirante do século XX na vida profissional e política em Goiás. ELIEZER JOSÉ PENNA é filho de José Penna e de Virgília Penna. Nasceu na cidade paulista de Taquari no dia 8 de agosto 1925. Viajou para Goiás em 1949 com o fito de realizar uma reportagem, tomou-se de paixões pela cidade e por uma jovem local. Cravou e fixou raízes e nunca mais deixou a Capital goiana.

Eliezer Penna começou a vida na sua terra natal, cursou o Ginásio (Ensino Fundamental) em Itapeva e em Avaré, cidades vizinhas e melhor servidas de estabelecimentos de ensino, depois buscou o Rio de Janeiro, onde se formou e onde fixou residência por algum tempo; acalentava o desejo de trabalhar no rádio na antiga Capital da República, porém um ano depois preferiu retornar às garoas das suas origens, indo para a Paulicéia, onde passou a residir e trabalhar.

Seu primeiro passo em São Paulo foi desistir do sonho de ser radialista. Dedicou-se à imprensa escrita. E aí sua ambição não foi pequena: desejava trabalhar no jornal Folha da Manhã, mas teve de se contentar em começar numa publicação modesta, órgão politicamente engajado, com orientação esquerdista, o jornal Hoje, dirigido por Joaquim Câmara Ferreira, que anos depois viria participar de movimentos políticos armados, com o cognome de Toledo, durante o período do regime militar implantado em 1964, o que o levou a ser morto sem mesmo ter sido preso. Eliezer considerava seu superior excelente jornalista e tem dele ótimas lembranças. Hoje tinha como chefe de redação o judeu Noé Gertel, e como chefe de reportagem uma pessoa possuidora de ligações familiares em Goiás, de quem Eliezer se lembra apenas do sobrenome Marques.

Deixando seu primeiro trabalho, galgou o segundo degrau da sua longa e profícua vida de jornalista profissional, passando a trabalhar no jornal diário O Dia, pertencente ao grupo político liderado pelo então governador de São Paulo e destacado homem público, Adhemar de Barros. Esse fato não era do conhecimento público, mas os funcionários tinham ciência dele porque, embora o governador Adhemar jamais houvesse ido à empresa jornalística, a orientação política era de apoio incondicional a ele.

Mais tarde Eliezer, como prêmio por sua dedicação e competência profissional, além de ser possuidor de um caráter firme e exemplar, ingressou na Folha da Manhã, alcançando assim um objetivo traçado e buscado com persistência inquebrantável. Até hoje (2008) ele guarda em seu arquivo pessoal matéria política assinada na primeira página, enviada de Goiás.

Mudança e trabalho em Goiás
O jornalista fez sua transferência de São Paulo para Goiás ainda jovem, mudança de vida promovida com audácia, mas com o entusiasmo próprio da juventude e estribado na confiança em sua capacidade profissional. Vivia-se o final da década de 1940, e Eliezer sentia a presença em São Paulo de uma discreta falta de liberdade, principalmente para quem trabalhava na imprensa, porque pouco antes, em 1947, houvera a ruidosa cassação dos mandatos eletivos dos comunistas em todos os níveis – começando pelo senador Luiz Carlos Prestes – e ato contínuo teve início uma repressão contra a esquerda brasileira durante o Governo do presidente Eurico Gaspar Dutra, e os antigos militantes do Partido Comunista do Brasil (mais tarde Partido Comunista Brasileiro) sentiam velada, porém intensa dificuldade de trabalhar nas empresas jornalísticas.

Eliezer tinha um amigo e conterrâneo, de Avaré, chamado Novaes, que fora deputado federal e era chefe de redação do jornal Correio Paulistano. Em época de calmaria política esse amigo poderia tê-lo convidado para trabalhar, mas a publicação era uma das mais conservadoras de São Paulo, o que impediu que isso acontecesse. O jovem jornalista estava sempre em contato com o velho amigo e um dia este o fez entender que gostaria que Eliezer trabalhasse no jornal, mas em conseqüência do problema político, a direção levava em conta a tendência ideológica do provável colaborador, não vendo com bons olhos a presença de um esquerdista nos seus quadros.

Já trabalhando na Folha da Manhã, surgiu a oportunidade de Eliezer Penna viajar para Goiás a fim de fazer cobertura jornalística da Exposição Agropecuária de Goiânia, que naquele tempo já estava despontava como um dos empreendimentos de vulto nacional. O prazo previsto de permanência do repórter em Goiás era de no máximo uma semana, quando deveria retornar a São Paulo, mas o destino do jovem estava selado. Ele gostou tanto de Goiânia, sentiu nela uma cidade de futuro, tendo apenas 55 mil habitantes, mas com um crescimento acima da média das outras cidades brasileiras. Corria o ano de 1949. Governava o Estado o engenheiro Jerônimo Coimbra Bueno. Eliezer desembarcou na cidade exatamente no dia 18 de junho, e, assim que passou a respirar o ar local, a sentir o clima, a conversar com as pessoas e sentir a hospitalidade da população, começou a pensar se Goiânia não seria a cidade ideal para dar início a uma vida nova, porque ele não era conhecido no local, não era alvo de restrições políticas nem de ordem pessoal. Além disso, estava sendo tratado com muita fidalguia, entabulou amizade com a equipe de funcionários da estalagem em que se hospedara – o Hotel Itajubá, localizado na Praça Antônio Lisita – e imediatamente conheceu uma jovem por quem se enamorou, ambos no ardor da juventude, e assim teve início o namoro.

Com a conjugação de todos esses fatores, tendo acabado de chegar em Goiânia, Eliezer, com apenas 24 anos de idade, rapidamente pensou e foi amadurecendo a idéia de permanecer e não perdeu tempo. Enquanto fazia a cobertura jornalística da Exposição Agropecuária, empreendeu uma visita à redação da Folha de Goiás, o órgão dos Diários Associados, grupo de comunicação com o qual já colaborara em São Paulo, no jornal Diário da Noite, como freelancer.

A visita aos Diários Associados não poderia ter sido em momento mais propício às pretensões de Eliezer, pois ocorreu quando o diretor do diário, Aloísio Sayol de Sá Peixoto, acabara de ter sério desentendimento com o editor, então demitido, surgindo assim uma vaga, que pareceu estar esperando a chegada de Eliezer. Foi como a mão encaixar-se na luva no momento certo. Sá Peixoto perguntou ao moço sentado à sua frente se ele não teria vontade de ficar em Goiás. A resposta foi rápida e fulminante:

– Quem que não tem? Acho que o Brasil todo tem, está caminhando para o Centro-Oeste!

Eliezer lembrou-se instantaneamente da célebre frase do grande estadista brasileiro do Século XX, Getúlio Dornelles Vargas, que a pronunciara pouco tempo antes no sentido de que naquele momento histórico a verdadeira brasilidade era a “Marcha para o Oeste”, pensamento que o jovem paulista assimilara na plenitude. Acrescentou sentir que estava na mesma rota dos bandeirantes antigos.

Tendo a conversa preliminar desaguado nesse ponto positivo, favorável a ambos – ao diretor, que necessitava com urgência de um profissional competente para ocupar a vaga, e ao jornalista, que desejava permanecer em Goiânia – Sá Peixoto indagou de Eliezer, discretamente, se ele gostaria de fazer uma matéria para o jornal, com o que, na realidade, ele desejava testar as qualidades do jovem. Estava programada para acontecer uma importante solenidade no Palácio das Esmeraldas, sede do governo estadual, e assim Eliezer teve como incumbência comparecer ao evento e fazer matéria completa sobre o mesmo.

Missão cumprida à risca. A matéria foi feita nas especificações pedidas e devidamente datilografada. O diretor leu, percebendo que não estava enganado, que o jornalista tinha talento e experiência, propondo-lhe em seguida:

– Você está convidado.

Convite prontamente aceito com incontida euforia, faltava apenas o acerto de salário, sistema de trabalho e outros detalhes, o que foi feito e Eliezer pôde assim dar início ao seu trabalho em Goiás, com imenso entusiasmo, começando uma vida de vitórias em todos os sentidos.

A paga proposta era compensadora. O trabalho, dignificante, porque Eliezer Penna já iniciaria por cima, como radator-chefe. Em São Paulo ele era chefe de reportagem. Em Goiás seria chefe da redação, comandando o setor com uma equipe completa, dos Diários Associados, uma empresa de âmbito nacional, de grande repercussão.Permaneceu na Folha de Goiás por dois anos.

Após oito meses de trabalho, Eliezer deu mais um passo importante na sua ascensão na vida, casando-se com a jovem Aracy Taveira, de grada família oriunda da tradicional cidade de Niquelândia.

Assim, com o encadeamento de diversos fatores, Eliezer Penna fixou-se definitivamente em Goiás. Enraizou-se em profundidade. Sentiu fazer parte de uma tendência de muita gente do sul de se dirigir para o norte, desde o tempo dos bandeirantes, ocupando a hinterlândia brasileira. No início da colonização dos espaços vazios do centro e do norte, os paulistas e mineiros empurravam o gado, que empurrava o índio, por isso os silvícolas foram mais para o mato cada vez mais distante e a população oriunda do sul trouxe o gado para ocupar, povoar e civilizar o centro e o norte.

Concomitantemente com o trabalho na Folha de Goiás, Eliezer acumulou função na assistência noticiosa no Palácio das Esmeraldas, a convite do então governador Jerônimo Coimbra Bueno, que passou para a história como um péssimo administrador, tendo tratado o funcionalismo público estadual com desídia, atrasando o pagamento por meses seguidos e viajando muito, permanecendo pouco à frente do Executivo goiano. Mas Eliezer Penna foi testemunha viva e ressalta um importante ponto positivo na administração a que serviu e faz justiça ao então governador: na questão da pecuária, a grande vocação econômica de Goiás, Jerônimo Coimbra Bueno tomou a iniciativa de implantar uma inovação, que foi muito combatida pela oposição, trazendo gado de Uberaba, chamado Tourinhos VR, denominação derivada de Vicente Rodrigues da Cunha, de quem ele adquiriu e remeteu para o norte do Estado, porque na região existia tão somente o gado curraleiro, de pequeno porte, desprovido de valorização comercial.

No jornal O Popular
Ao final de dois anos de trabalho na Folha de Goiás, Eliezer recebeu convite do jornalista e empresário Jaime Câmara para prestar serviços ao jornal O Popular. Achando a proposta tentadora, aceitou de pronto, embora o jornal fosse bi-semanário, mas ele, com sua contumaz audácia, afirmou ao empresário que seria bom que transformasse o jornal em diário. Câmara conhecia muito bem a experiência de Eliezer na Folha de Goiás, e estava ciente de que ele trabalhava com uma absoluta estabilidade, capacidade e com resultados, que já exercera chefia de reportagem no jornal Hoje, em São Paulo, no comando de 16 repórteres. O empresário, para surpresa do jornalista, disse que era exatamente para isso que desejava que Eliezer fosse trabalhar com ele, isto é, para fazer com que O Popular saísse diariamente.

Essa mudança de Eliezer Penna para o jornal O Popular e sua conseqüente transformação em diário ocorreu em 1952. O jornalista, nas suas memórias, não se esquece de fazer justiça a dois nomes que o auxiliaram com loquaz colaboração, viabilizando a nova periodicidade do jornal: Isorico Barbosa de Godoy e seu irmão Eurico Calixto de Godoy, que ele considera pessoas de relevo na história de Goiás.

Mas as inovações implantadas no jornal O Popular por Eliezer não ficaram só na sua transformação em diário. Ele conseguiu implantar outras melhorias revolucionárias na imprensa goiana. A primeira fotografia colorida publicada num jornal de Goiás foi em O Popular, a imagem de uma mulher de maiô, Marta Rocha, a miss Goiás e miss Brasil que fora segunda colocada no concurso de miss Universo. Ela só não foi a primeira porque deveria ter perdido umas duas polegadas, apesar de ser um tipo de beleza original, morena de olhos azuis, filha de um alemão com uma mulata da Bahia.

Mas o fato é que, quando tomou conhecimento da matéria com uma mulher de maiô na primeira página do seu jornal, Jaime Câmara quase teve um faniquito, lembra Eliezer, porque o órgão era conservador, porta-voz de uma sociedade conservadora! Mas a foto foi um sucesso pleno e a sociedade aplaudiu a novidade. O diretor, que tinha certas restrições à modernidade que Eliezer estava introduzindo no jornal, passou a dar-lhe incondicional apoio e é por isso O Popular é, nos dias de hoje, o mais importante jornal de Goiás.

Por essa época o jornal era impresso numa máquina gráfica transferida juntamente com a empresa para a nova Capital muito tempo antes, já que o jornal surgiu ainda em Goiás, a velha capital do Estado (Goiânia fora inaugurada em 1935).

Eliezer Penna, jovem, idealista, dinâmico e modernizador, sentiu então, com o jornal sendo diário, a necessidade da modernização do parque gráfico, para o que se fazia mister a compra de uma nova e moderna impressora e a oportunidade surgiu quando chegou a Goiânia um vendedor de máquinas gráficas. Eliezer dirigiu-se ao empresário Jaime Câmara, explicando a necessidade de uma máquina nova e reivindicando a aquisição da Fokhentar, importada da Alemanha, porque a existente estava superada, imprimia de duas em duas páginas, mas Jaime Câmara achou que a máquina era muito dispendiosa e declinou da compra.

Porém o tal vendedor visitou o jornal O Social, cujo proprietário era José Ludovico de Almeida, conhecido como Juca e futuro governador do Estado, o qual adquiriu a dita máquina. Sabedor da transação do concorrente, Eliezer relatou o fato a Joaquim Câmara Filho, lembrando que O Social iria dar um salto de qualidade, porque, embora fosse um jornal semanal, não deixava de ser um concorrente, e também porque era o porta-voz do Partido Social Democrático. Câmara Filho, irmão mais velho do diretor e dono de uma grande visão jornalística, demonstrou interesse na aquisição e então houve uma reunião entre os três irmãos, Joaquim, Jaime e Tasso Câmara, e eles deliberaram imediatamente a realização da compra. O vendedor foi procurado no hotel em que estava hospedado e disse a Jaime Câmara que a máquina, no dia anterior custando 250 mil cruzeiros, no dia seguinte já valia 400 mil, isto em conseqüência de problemas de importação, mas Jaime quis assim mesmo e fez a encomenda. Essa máquina se encontra até hoje nas oficinas do jornal, em operação. Diz-se que O Popular é um dos jornais que têm os melhores equipamentos do País, que poucos jornais possuem estrutura igual.

Nesse período o jornalista teve a oportunidade de participar de incontáveis eventos que depois ficariam marcados para sempre nos anais da história de Goiás e do Brasil e cita como exemplo um fato que jamais será olvidado, porque está registrado na imprensa e em fotografia existente no arquivo do Congresso Nacional. Foi quando o recém-empossado presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira aterrizou no sítio onde viria a ser construída a nova capital da República. No momento em que o presidente desceu a escada do avião, Eliezer estava lá e foi assim o primeiro jornalista a entrevistar Juscelino quando ele pisou no solo da futura Brasília, exatamente no dia 2 de outubro de 1956. Eliezer estava acompanhado pelo fotógrafo Hélio de Oliveira, o legendário profissional goiano que fez as fotos para o importante registro histórico.

Eliezer permaneceu no jornal O Popular de 1952 a 1958, quando José Feliciano o convidou para coordenar sua campanha ao Governo do Estado. Solicitou licença ao jornal e dedicou-se ao desempenho da nova e diferente tarefa, que iria abrir-lhe novos e vastos horizontes na vida.

A célebre entrevista com Juscelino
Um dos trabalhos jornalísticos que mais consagraram Eliezer Penna foi sem dúvida a entrevista com o presidente Juscelino Kubitschek, realizada no dia 2 de outubro de 1956 em pleno cerrado onde seria construída a nova capital da República e publicada no jornal O Popular nos dias 3 e 4 do mesmo mês.

O jornalista saiu de Goiânia de automóvel, acompanhado do fotógrafo Hélio de Oliveira com destino ao sítio às 19h30 da véspera e viajou a noite toda por estradas de terra e teve peixe frito como primeira refeição num posto do Dergo, antigo Departamento de Estradas de Rodagem de Goiás. Às 11 horas já estava a postos no aeroporto improvisado construído pelo engenheiro Bernardo Sayão.

JK chegou de avião precisamente às 12 horas, antes da aeronave que transportava os repórteres da imprensa nacional e por isso, ao se apresentar para a entrevista, Eliezer ouviu de JK a espantada expressão:

– Tem jornalista aqui, já?

A comitiva do presidente era composta de cerca de 30 pessoas, entre as quais o ministro da Guerra, marechal Henrique Duffles Teixeira Lott, o presidente da Novacap, Israel Pinheiro e o arquiteto Oscar Niemayer. Estavam presentes também o governador de Goiás, José Ludovico de Almeida, o presidente da Comissão de Desapropriação, Altamiro de Moura Pacheco e outras autoridades.

À sombra da estação improvisada do aeroporto, coberta por folhas de bacuri, teve início a entrevista, com Eliezer perguntando ao presidente qual foi a sua impressão do local onde seria edificada a nova capital, visto do avião. A resposta foi exatamente:

– Uma vasta planície, deserta e solitária!

Acompanhando o presidente durante as quatro horas seguintes, Eliezer foi testemunha de fatos interessantes, como a assinatura do decreto substituindo o ministro da Saúde e o insólito pedido de um cacique político do Sudoeste de Goiás, pedindo a Juscelino que transferisse um médico da cidade para outro lugar, porque era seu desafeto político. Se o pedido foi ou não atendido, não se sabe.

Episódio de 5 de março de 1959
Em 1959 aconteceu uma crise que abalou o Governo José Feliciano, assunto nunca mais esquecido, sobretudo pelos meios estudantis e políticos de Goiás. Foi por causa da data do ocorrido que surgiu o jornal com o nome de Cinco de Março. Eliezer se encontrava no Rio de Janeiro, quando recebeu a notícia por meio de um telefonema, do que seria um fato grave, mas posteriormente o tempo foi esclarecendo. Não houve uma luta. Os estudantes da Capital queriam fazer um comício e a Polícia não permitiu e interferiu. Os jovens enfrentaram e a Polícia atirou. A única bala que teve endereço certo raspou a cabeça do estudante João Gualberto. O fato estava sendo muito explorado pelos adversários do Governo, e por isso Eliezer levou o jovem para ser funcionário da Secretaria, deu-lhe uma bicicleta para realizar serviços externos, mas ele fugiu com o pequeno veículo. Queriam prendê-lo, mas Eliezer ponderou o contrário, entendendo que, enquanto estivesse com a bicicleta, ele não retornaria. Foi a única vítima do qüiproquó. Como o episódio ocorreu no dia 5 de março e a União Democrática Nacional, o principal partido de oposição, estava fazendo enorme barulho para explorar o fato politicamente, surgiu o jornal com esse nome.

Vida pública
Assim, de profissional exclusivamente dedicado ao jornalismo, Eliezer Penna passou a ser o principal coordenador da campanha eleitoral de um candidato a governador, trabalho que foi coroado de êxito, já que José Feliciano foi eleito e formulou-lhe de chofre a pergunta:

– O que você quer no Governo?

Eliezer não teve resposta para dar. Como não respondeu, foi nomeado secretário da Justiça. Não foi sem grande surpresa que recebeu a notícia, sendo uma pessoa que tinha chegado ao Estado havia apenas sete anos, ascender tão rapidamente ao cargo de secretário de Estado da Justiça! Foi uma grande vitória que Eliezer capitalizou literalmente, permanecendo no cargo durante os dois anos de mandato de José Feliciano. Em 1960 o ex-governador assumiu a presidência do Banco do Estado de Goiás, na gestão do governador Mauro Borges e Eliezer passou a ser assessor do presidente da instituição bancária.

A campanha de JK ao Senado
Em 1961, estando o ex-presidente Juscelino Kubitschek sem mandato – entregara o cargo de presidente para Jânio Quadros – houve um clamor para que o grande mineiro fosse eleito senador por Goiás, como um preito de gratidão por ele ter edificado Brasília em solo goiano, beneficiando imensuravelmente todo o Estado. Uma vez candidato, foi aberto o comitê eleitoral. Mais uma vez Eliezer Penna foi convocado a cumprir importante missão, a de coordenador da campanha. A eleição era para eleger o ex-presidente e isso só foi possível com a renúncia do senador Taciano Gomes de Melo, um médico potiguar que migrara para Pires do Rio nos anos 20 e onde fizera vitoriosa carreira política, alçando-se a cargos de relevância no Estado de Goiás, tendo sido presidente da Assembléia Legislativa e da Assembléia Estadual Constituinte, em 1947. Mas não bastava a renúncia do titular da cadeira, era necessário o afastamento do suplente, que também era uma das eminências políticas de Pires do Rio, Péricles Pedro da Silva, que desistiu de assumir o mandato. Com isso ficou vaga uma das três representações goianas na Câmara Alta e a Justiça Eleitoral convocou essa eleição “solteira”. O candidato a suplente de JK foi o ex-governador José Feliciano Ferreira, que, em 1962, foi também eleito senador. Houve um acordo entre os grandes partidos políticos no Estado para que a eleição de Juscelino fosse pacífica.

A campanha estava se desenvolvendo muito mal no início, porque o ex-presidente importara de Minas Gerais assessores alheios à realidade, às minúcias políticas de Goiás, e, num dia em que ele estava almoçando no Hotel Bandeirante, a hospedaria mais importante na época, ele perguntou ao deputado Paulo Roberto, de Ceres, e a Ulysses Jayme, seu advogado particular em Goiás, como estava se desenvolvendo a campanha, momento em que o deputado respondeu que iria falar a verdade e afirmou que os trabalhos não estavam bem orientados, que o comitê estava cheio de “picaretas” à cata de tomar dinheiro, enquanto os verdadeiros líderes políticos estavam marginalizados, eram na sua maioria pessoas muito simples, humildes e até tímidas. A solução apontada era colocar alguém de Goiás à frente da campanha e Ulysses Jayme indicou o nome de Eliezer Penna, dizendo que ele seria capaz de conduzir a campanha a contento, argumentando como prova o vitorioso pleito de José Feliciano em 1958, que fora coordenado pelo jornalista. Naquele momento um assessor de Juscelino, Sinval Siqueira, disse que já tinha ouvido falar naquele nome, mas que ele se encontrava ausente, tendo viajado para São Paulo em virtude da doença de seu pai.

Assim que retornou recebeu recado de JK e se dirigiu incontinenti ao Hotel Bandeirantes, encontrando o ex-presidente deitado com uma coberta a cobrir-lhe o ventre e formulou-lhe o convite para que comandasse sua campanha. Entusiasmado diante de mais essa importante perspectiva, de mais esse desafio, Eliezer se pôs à disposição e Juscelino encarregou o assessor Sinval de, a partir do dia seguinte, entregar ao novo chefe da campanha a cadeira do comitê, determinando que se fizesse tudo como Eliezer desejasse. Assim, o jornalista tomou posse no comitê, com o cuidado de não melindrar as pessoas que já se encontravam lá e deu início imediato ao trabalho.

Surgiu, porém, um imprevisto. A eleição deveria ter Juscelino como candidato único, mas surgiu outro postulante, uma outra chapa, tendo como candidato a senador Wagner Estelita Campos e como suplente Waldir de Castro Quinta, sem a menor perspectiva de vitória, registrada pelo minúsculo Partido Democrata Cristão. As expectativas se confirmaram com a eleição de Juscelino Kubitschek de Oliveira para um mandato tampão de curta duração, que se expiraria em 1966, já que o senador renunciante fora eleito em 1958, para cumprir oito anos. Mais tarde, com o golpe militar de 1964, Juscelino teve seu mandato cassado pelo chefe da Junta Militar, Castello Branco, e Goiás ficou com apenas dois representantes no Senado até a realização da eleição regulamentar, em 1966, quando foi eleito João Abrão para completar o tempo. JK foi eleito e no dia 29 de dezembro de 1961 com o apoio de todos os partidos políticos, grandes e pequenos, com exceção do PDC.

O último ato como assessor na importante missão foi quando, após a apuração dos votos, com JK já na condição de senador eleito, telefonou a Eliezer do Rio de Janeiro dizendo-lhe que fizesse uma nota à imprensa, agradecendo o eleitorado goiano que o elegera e mais duas notas agradecendo os líderes políticos e os motoristas de um modo geral, o que foi feito imediatamente. O então diretor do jornal O Popular, Jaime Câmara, nada cobrou pela publicação, afirmando ser impossível cobrar do ex-presidente da República.

Eleito deputado
Em seguida, no ano de 1962, quando haveria eleições para a renovação das assembléias legislativas, da Câmara dos Deputados e dois terços do Senado, além das câmaras municipais, Eliezer candidatou-se a deputado estadual e foi eleito, tendo feito sua campanha com o apoio político de Feliciano, porém sozinho. Nesse período o governador de Goiás era Mauro Borges, da mesma grei política do deputado, que, entretanto, pertencia ao grupo do ex-governador Feliciano e assim não era considerado de dentro do grupo Mauro, embora tivesse perfeito entrosamento com o senador Pedro Ludovico, pai do governador e principal líder político de Goiás. Além disso, Eliezer via em Dr. Pedro uma personalidade de grande valor, respeitava-o por sua cultura e conversavam muito, freqüentava regularmente a sede do PSD, do qual o senador era presidente regional e assim tinham uma convivência estreita e cordial.

Superintendente do Cerne
O momento histórico era de conturbação em todo o Brasil, advindo daí a chamada revolução de 1964, que passou para a história como golpe militar. Logo após esse acontecimento, o mandato de senador de Juscelino Kubitschek foi cassado e ele teve seus direitos políticos suspensos por dez anos, assim como os ex-presidentes João Goulart e Jânio Quadros e inúmeros líderes políticos de todas as tendências, porque os militares pretendiam governar sozinhos.

Na visão do então deputado Eliezer Penna, o Governo Mauro Borges se caracterizou pela criação de muitos órgãos de grande valor histórico, cuja importância foi a de catapultar o Estado da situação de marasmo para a condição de estrela brilhante entre as demais unidades da Federação. Ele cita a Indústria Química de Goiás – Iquego – o Consórcio Rodoviário Intermunicipal – Crisa – e muitos outros. Eliezer tem uma lembrança particular do Cerne, o importante órgão de comunicação estadual criado pelo governador Mauro Borges, porque mais tarde veio a dirigi-lo. O órgão era constituído pela Rádio Brasil Central, Gráfica de Goiás, jornal Diário de Goiás, Agência Goiana de Propaganda, Diário Oficial do Estado, além de outras empresas que formaram o Consórcio Estadual de Radiodifusão e Notícias do Estado de Goiás.

Após o movimento militar, o líder do grupo político a que pertencia Eliezer, senador José Feliciano, convidou os companheiros e disse que aquele movimento não fora desencadeado para durar pouco tempo e, caso eles desejassem continuar com Mauro Borges, ficavam livres para fazê-lo e comunicou que ele próprio iria fazer parte da Arena, o partido destinado a dar respaldo aos atos dos militares. Assim, fiel ao governador a quem servira no passado, o deputado tomou a decisão de acompanhar Feliciano e não hostilizar o governo militar, abster-se nas votações decisivas, já que o governador Mauro Borges, nessas alturas havia sido deposto.

Em 1965 foi eleito Otávio Lage para o Governo e Eliezer foi convidado para assumir a Secretaria de Imprensa, tendo desempenhado a missão com competência e profissionalismo.

Em 1967 expirou o mandato de deputado de Eliezer e ele serviu ao Governo Otávio Lage até 1971, quando assumiu o novo governador, Leonino Caiado, que o convidou para o cargo de superintendente do Cerne, missão que cumpriu também com galhardia durante seis meses, quando o governador o convocou para comandar três assessorias no Palácio das Esmeraldas: de Imprensa, de Relações Públicas e uma econômica, relacionada com o setor de imprensa. Lá novamente ele prestou bons serviços, guardando na lembrança o fato de que Leonino fez um governo pacífico, que não perseguiu nem hostilizou ninguém e produziu muito, foi realizador. Para ele, Leonino Caiado é uma pessoa de temperamento calmo e na época do seu Governo ele tinha a preocupação de manter um bom relacionamento com a imprensa.

A morte de Juscelino
Eliezer foi o primeiro jornalista a noticiar a morte de Juscelino Kubitschek. Ele estava na chefia de redação do jornal semanário Cinco de Março, quando recebeu a notícia do acidente e que JK havia falecido. E como o jornal circulava às segundas-feiras, enquanto os diários brasileiros só circulavam até domingo, foi o semanário goiano o primeiro jornal do País a divulgar a notícia. O acidente ocorreu num domingo, às 23h30 do dia 22 de setembro de 1976.

Família
O grande profissional da imprensa tem orgulho e sua expressão se descontrai ao falar de sua família. Ele conta ter chegado em Goiânia no dia 18 de junho de 1949 e repete sempre ter conhecido de imediato a musa da sua vida, casando-se poucos meses depois. O casal teve quatro filhos que se multiplicaram, e hoje a família Penna é formada de mais onze netos, além de genros e noras, concluindo que o casamento foi uma união abençoada por Deus e que frutificou.

O patriarca tranqüilo narra uma coincidência interessante sobre sua família, fato que ele faz que questão de frisar. Trata-se do fato de que ele chegou em Goiânia no dia 18 de junho de 1949, exatamente no dia em que vinha ao mundo, em Uberaba-MG, um garoto que mais tarde viria para Goiânia, ficaria conhecendo uma sua filha e com ela se casaria, sendo hoje seu genro e pai de seus netos!

Pirituba, a terra natal
Eliezer fala também com muito entusiasmo e saudosismo sobre sua terra natal e seus pais. Ele disse que seu pai, José Penna, era natural da pequena cidade paulista de São Pedro, próxima a Piracicaba. Recebendo o diploma de farmacêutico em Itu, foi viver na comunidade de Taquari, onde conheceu a filha do líder político local, Virgília, com quem se casou. Seus avós foram os fundadores do pequeno povoado e seu pai, herdando as influências políticas do sogro e aplicando seus dotes de liderança – era farmacêutico e fazia as vezes de médico – fez amizade com o líder político da região nos idos da República Velha, Ataliba Leonel, e a uma certa altura comunicou-lhe que desejava a emancipação política do povoado. Foi prontamente atendido, recebendo apenas a incumbência de formalizar o processo e o pedido, de conformidade com a lei vigente, o que José Penna providenciou imediatamente. Ao levar o processo para o senador encaminhar na Capital paulista, este folheou os papéis, achou tudo conforme, mas disse que faltavam duas fotografias da cidade, sem o que não seria possível encaminhar o processo. Nesse instante José Penna, triste, disse ao senador que, caso incluísse as fotografias a emancipação não poderia ser aprovada, já que a cidade era muito pequena, tinha apenas duas ruas. O matreiro líder político Ataliba Leonel o tranqüilizou, dizendo que tal detalhe não seria empecilho e sugeriu ao interessado que tirasse as fotografias na própria cidade do senador, Piraju, não do centro, mas de ruas novas. Assim foi feito e a emancipação foi aprovada sem a menor dificuldade. Mais tarde o nome da cidade foi mudado para Taquarituba, que significa na linguagem indígena "taquara pequena e doce". José Penna foi nomeado primeiro prefeito e posteriormente eleito para mais um período. Faleceu em 1966.

Eliezer faz questão de narrar que o município onde nasceu tem relevância como produtor agrícola, já chegou a ser o maior produtor de milho do interior de São Paulo e de lá saiu até o milho de que é fabricado o uísque Drurys, com fábrica em Sorocaba e atualmente produzido também em Barra do Garças-MT.

Literatura
Além de vitoriosa carreira profissional como jornalista em Goiás e da intensa participação na vida pública como assessor, secretário de Estado, dirigente de órgão público e deputado, Eliezer Penna enveredou com brilhantismo pelas sendas da literatura, atingindo o ápice como integrante da mais alta e grada entidade representativa dos escritores do Estado. É membro da Academia Goiana de Letras, onde ocupa a cadeira de número 5, tendo sucedido ao escritor Xavier de Almeida. Tem dois livros publicados e mais três “no forno”, sendo um sobre sua terra natal, um sobre fatos políticos de Goiás e o último que aborda assuntos gerais. Foi presidente e é membro do Conselho Deliberativo da Associação Goiana de Imprensa-AGI; em 2007 foi reeleito presidente da entidade, para um mandato de dois anos. Considera-se "pioneiro de Goiânia e de Brasília". É religioso, freqüentando regularmente a Igreja Batista.

Conceito
O octogenário patriarca Eliezer Penna é extremamente preocupado com a situação do Brasil de hoje e particularmente com a cidade onde vive com sua família. Para ele, Goiânia, pela sua posição geográfica, sendo uma cidade com mais de um milhão de habitantes, está atraindo milhares e milhares de pessoas de estados mais pobres, sobretudo do Nordeste, em parte em conseqüência da campanha realizada pelo ex-governador Maguito Vilela de dar comida, pão e leite. Essas pessoas convergiram para a cidade na ilusão de que teriam pelo menos a alimentação, mas na realidade todos necessitam não só de alimentação, mas também de emprego duradouro.

“O que dá dignidade ao trabalhador é o trabalho,
é ter o pão de cada dia, ganho por ele”.
(Eliezer Penna).

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

RODRIGO MACHADO, MOÇO E VIRTUOSO, TROCA DE IDADE

Moço e virtuoso. Assim pode ser definido com justeza e com justiça o aniversariante de hoje das cidades de Vianópolis e Anápolis, Rodrigo Machado. De Vianópolis, porque essa é sua terra natal, sua pequena mas ardente pátria, onde nasceu, passou a infância, onde tem seus familiares e os amigos primeiros... Vianópolis é uma terra venturosa, e venturoso é Rodrigo Machado por ter nascido ali, naquele torrão feliz, lugar de gente boa e de mulheres bonitas, virtuosas.

Mas Rodrigo pertence também a Anápolis, porque esta é a cidade aonde ele vai diuturnamente, de segunda a sexta-feira, em busca de mais saber. Especificamente à Faculdade de Direito Raízes, onde cursa o terceiro período, sendo aluno destacado não só pelas boas notas, mas pelo comportamento. E também pela facilidade de construir amizades sólidas e duradouras.

Porque Rodrigo Machado é um amigo.

Solteiro, não sabe o que fazer de tantas moças admiradoras, fãs, pretendentes à sua mão...

Enfim, um grande camarada.

Parabéns, Rodrigo, pelo transcorrer do seu anversário.

Tenha um “niver” feliz, mais um ano profícuo ao lado das pessoas que você ama.

*Virtuoso,
Que possui e cultiva qualidades de virtude ('moral, religiosa, social etc.')
Ex.: <é um monge v.>